O maior dos pesos vem do eterno retorno do mesmo

E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer, cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!”. Você não se prostaria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?”, pesaria sobre seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela?

– Nietzsche em Gaia Ciência, aforismo 341 (tradução do Paulo Cesar de Souza)


Niilismo atavista

Bazarov, em Pais e Filhos, de Turgueniev: O lugar insignificante que ocupo é tão minusculo em comparação com o resto do espaço em que não estou e onde não se importam comigo. A parcela de tempo que hei de viver é tão ridícula em face da eternidade, onde nunca estive e nunca estarei… Neste átomo,


Morte de Deus, fim da moral e o super-homem: Nietzsche e Dostoiévski

Na página 109 da tradução de Paulo Bezerra, é revelado o conteúdo do artigo de Ivan Karamazov: “… ele (Ivan Karamazov) declarou em tom solene que em toda a face da terra não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame


Por conta da revista Veja: a língua portuguesa

Vícios de linguagem. A revista Veja publicou um artigo alertando o excesso de uso da locução “por conta de“, comparando-a à expressão “a nível de“. Louvável. E curioso. Curioso: se você fizer uma rápida pesquisa no Google, verá que o site veja.abril.com.br tem mais de 29 mil ocorrências de “por conta de“. Indo além, a


A importância do leitor: Montaigne e Pascal

Estranhei um bofetão que Pascal dá em Montaigne em relação aos ensaios (pensamento 59/63): “Os defeitos de Montaigne são grandes. Termos lascivos: isso não vale nada, diga o que quiser Mademoiselle de Gournay. Crédulo: gente sem olhos. Ignorante: quadratura do círculo, o mundo maior. Suas opiniões sobre o homicídio voluntário, sobre a morte. Inspira uma


Tradução do poema Último Brinde de Anna Akhmatova

Eis minha primeira tentativa de uma tradução literal de um poema. É o Последний тост de Ахматова Анна (Anna Akhmatova). No original: Я пью за разоренный дом, За злую жизнь мою, За одиночество вдвоем, И за тебя я пью,— За ложь меня предавших губ, За мертвый холод глаз, За то, что мир жесток и груб,


Chico Buarque e o pretérito imperfeito

Estou cada vez mais intrigado com o uso do pretérito imperfeito no lugar do futuro do pretérito. Da próxima vez que eu for recriminado pelo uso de “Eu queria (quereria) um BigMac“, cantarei um Chico Buarque: Ah, se eu soubesse não andava na rua. Ah, se eu pudesse te diria na boa. Ah, se eu


Pula, viadinho!

Mesmo com seus pais presentes na beira da piscina, sou o único a incentivar meu sobrinho, “você também consegue!”, e ele sobe graciosamente o fim da pequena escada copiando os recentes movimentos do irmãozinho. Um pé para cima, procura o degrau com a ponta do dedão, leva a cintura para um lado quase como uma


Viu como eu não estava mentindo?

Avenida Paulista, sexta-feira, 18:30. Dois paulistanos, um canadense, trajeto consolação-paraíso. Hora do rush para nós pedestres e a aglomeração é grande para as largas calçadas da avenida. Conversa em inglês já na altura do MASP: – So are we heading to a sushi place? – Yep. It’s not far from here, it won’t take too


Dostoievski, Schopenhauer e a boa literatura

Tirei esta foto há 5 anos, em uma vitrine próxima ao túnel de travessia da Consolação. É utilizado como propaganda para o sebo que se encontrava por lá: Essa crítica, aos autores populares e bem sucedidos em vida, não é nova. Schopenhauer possui um ensaio curto a respeito da literatura onde, além de recomendar ler