Chico Buarque e o pretérito imperfeito

Estou cada vez mais intrigado com o uso do pretérito imperfeito no lugar do futuro do pretérito. Da próxima vez que eu for recriminado pelo uso de “Eu queria (quereria) um BigMac“, cantarei um Chico Buarque:

Ah, se eu soubesse não andava na rua.
Ah, se eu pudesse te diria na boa.
Ah, se eu soubesse nem olhava a lagoa.
Ah, se eu pudesse não caía na tua.

Repare que apenas a segunda frase emprega o imperfeito do subjuntivo + futuro do pretérito. Todas as outras utilizam o imperfeito do indicativo. Para ficar homogêneo, a segunda frase deveria ser “se eu pudesse te diZia na boa”, ou então todas as outras deveriam mudar (andaria/olharia/cairia), utilizando a norma culta.

A letra completa está aqui.


Pula, viadinho!

Mesmo com seus pais presentes na beira da piscina, sou o único a incentivar meu sobrinho, “você também consegue!”, e ele sobe graciosamente o fim da pequena escada copiando os recentes movimentos do irmãozinho. Um pé para cima, procura o degrau com a ponta do dedão, leva a cintura para um lado quase como uma


Viu como eu não estava mentindo?

Avenida Paulista, sexta-feira, 18:30. Dois paulistanos, um canadense, trajeto consolação-paraíso. Hora do rush para nós pedestres e a aglomeração é grande para as largas calçadas da avenida. Conversa em inglês já na altura do MASP: – So are we heading to a sushi place? – Yep. It’s not far from here, it won’t take too


Dostoievski, Schopenhauer e a boa literatura

Tirei esta foto há 5 anos, em uma vitrine próxima ao túnel de travessia da Consolação. É utilizado como propaganda para o sebo que se encontrava por lá: Essa crítica, aos autores populares e bem sucedidos em vida, não é nova. Schopenhauer possui um ensaio curto a respeito da literatura onde, além de recomendar ler


Shakespeare e Henry James

Lendo sobre Henry James no Wikipedia, encontrei essa descrição que Edmund Wilson (!?) faz sobre seu estilo de escrita: “One would be in a position to appreciate James better if one compared him with the dramatists of the seventeenth century—Racine and Molière, whom he resembles in form as well as in point of view, and


Civilizando os canibais

O extermínio indígena que se procedeu nas Américas com a chegada dos colonizadores não horroriza apenas os estudiosos recentes. Por muitas vezes, encontramos exatamente o oposto. Dois textos famosos, da época dos descobrimentos, são categóricos ao expor as mazelas trazidas na tentativa de “civilizar a raça inferior”. O ensaio Sobre os Canibais, de Montaigne, é


O que é preconceito? De Higienópolis a Danilo Gentili

Em um estado do sul do país, estávamos em três amigos. Um deles tinha um encontro marcado com uma garota da cidade. De posse do carro do outro amigo, fomos todos buscá-la. Depois de uma curta introduçao, resolvi quebrar o gelo: “Poxa Fulano! Que óculos escuro horrível este aí!” – eu disse. “É mesmo!” –


A miséria humana: o mineiro só é solidário no câncer

A coluna do Luiz Ponde, na folha de São Paulo, de 28 de março de 2011, intitulada “Só os neuróticos verão a Deus” (infelizmente apenas para leitores), me arrepiou. Ela começa assim: “Tenho pensando demais em dinheiro e sucesso. Não porque eu os tenha em excesso (haveria uma “quantidade justa” de dinheiro e sucesso?), mas


Carta Capital e Veja

Reinaldo Azevedo, o homem-dicionário-etimológico-sinônimos-antônimos da Veja, blogou sobre o recente desabamento de solo em uma obra do PAC. Politiza, dramatiza e escarnece situações como essa em diversos posts. Há quatro anos, reclamou da imprensa no caso do desabamento do metrô em São Paulo, justamente pela odiosa politização. Jogou com as palavras, intitulando-o de buraco do


Moby Dick ou a Baleia

Se você tem qualquer livro da Cosac Naify, percebeu o capricho que eles têm com o acabamento. O tal livro-objeto. Capas, ilustrações e tipografia invejáveis, com um espaçamento que facilita e agrada. Mas há sim um ponto em que prefiro outras editoras: as notas do editor e do tradutor. Praticamente não há notas nesse livro